ENTREVISTA A LUIS ONOFRE

 

– Como teve inicio o seu percurso como designer de calçado?
L.O. – Quando terminei o curso na Soares dos Reis – Porto, pensava seguir decoração de interiores ou a faculdade de Belas Artes. Foi o meu pai, que tinha então uma firma de calçado que já vinha da minha avó desde 1939, que após uma longa e séria conversa, me convenceu a seguir sapatos trabalhando a parte criativa. Grande parte do trabalho que é desenvolvido pelas empresas de calçado passa pelo design, principalmente hoje em dia.
Acabei por fazer a formação ainda com alguma interrogação da minha parte, mas com o desenrolar do curso e devido aos excelentes professores que tive, essa acabou por ser a minha escolha. Foi um dos melhores cursos que se fizeram. Quase três anos, no Centro de Formação Profissional em S. João da Madeira. Tivemos professores das Belas Artes, do Citex…foi um curso bastante completo que me deu um conhecimento muito bom e me abriu os horizontes para a área do calçado.
Comecei a trabalhar na firma em que estou hoje em 93. A firma do meu pai, que entretanto passou para meu nome. A minha marca, Luís Onofre, foi criada em 99, já la vão quase treze anos…
– A sua passagem pelo Centro de Formação foi então muito positiva!…
L.O. – Sim, aprendi bastante, mas aprendi também com a prática. Qualquer curso que se tira dá-nos as bases, mas o mundo real é completamente diferente e só com a prática no verdadeiro sentido da palavra é que se consegue chegar a algum ponto. Estive oito, nove anos até poder ter a minha marca, mas isso esteve sempre no meu subconsciente, era algo que eu queria muito e felizmente consegui.
Na altura a minha marca não era o que é hoje, evoluiu bastante também com o conhecimento que vou tendo do mercado, com a exigência do mercado e com a vontade de evoluir, encaminhando a marca para um segmento de luxo. Foi nesse sentido que tenho vindo a crescer.
– Como surgiu a sua internacionalização?
LO – Nós trabalhavamos já com marcas importantes antes da marca Luís Onofre. Na altura fazia praticamente a colecção toda da Kenzo e da Cacharel. Quando a minha primeira colecção foi apresentada em Espanha na Moda Calçado, já havia o intuito de sair de Portugal.
Na altura em que lancei a marca começava a haver um sentido de marketing diferente do que havia até então, uma “não-massificação” do produto. Tentar vender nas melhores lojas e no espaço em redor vender a muito poucas de forma a dar exclusividade e ter maior recetividade do cliente. Fomos construindo isso em Portugal, Espanha, no ano a seguir Itália. Trabalhamos muito bem o mercado grego, chegamos a ter quase cento e setenta clientes na Grécia!…Hoje em dia temos apenas cinco ou seis. Uma das coisas que tenho bem presente, é que neste setor os mercados variam muito num curto espaço de tempo.
Nessa altura em Portugal surgiram lojas com projetos muito interessantes a nível de marcas e conceitos que hoje têm deixado cair o sentido estético e a comercialização de artigos de luxo, o que também me levou a procurar outros mercados, tanto na Europa como fora.
– Quais os países onde a sua marca tem mais expressão?
LO – Rússia, países nórdicos, Europa, Estados Unidos…Temos um projeto muito interessante para duas lojas da Colômbia. O calçado é dos únicos sectores em Portugal que está a passar um bom momento. Não quer dizer que não estejamos a ressentir-nos, mas já passamos um momento assim em 95, 96. Nessa altura chegamos a perder bastante mercado externo mas serviu-nos de lição para o futuro. Em Espanha houve um retrocesso há dois anos mas nós já estávamos preparados para isso e já tínhamos começado a procurar novos mercados.
– Como processa o desenvolvimento criativo?
LO – Por vezes inspiração vem em catadupa, outras vezes é um bloqueio total. Mas basta um material de que goste muito ou algum tema de uma aplicação, e tudo começam a nascer. Tem de haver um clique para despoletar a parte criativa.
– Acha que há alguma característica diferenciadora entre o calçado Made in Portugal, e o que se faz no resto do mundo?
LO – Sim, em termos do que se faz em Itália, que serão os nossos concorrentes diretos, que têm um know-how absoluto em fazer sapatos, penso que existe ainda uma diferença. Eles souberam construir o “Made in Italy” como ninguém.
Nós cometemos erros (má qualidade, má produção, fraco acompanhamento dos clientes) nomeadamente nos anos 80 em que tínhamos as portas abertas para poder estar como Itália.
A pouco a pouco, esta nova geração está a tentar corrigir os erros do passado e semear, para daqui a uns anos podermos colher os frutos.
– Que conselhos daria a um estudante que queira singrar neste setor?
LO – Tudo começa pela formação. Fazem falta formadores com mais experiência, com capacidade de estar na parte produtiva para depois explicarem aos formandos as dificuldades que existem, porque eles não têm essa noção, e quando chegam ao “mundo real” parece-lhes tudo um problema e muita gente acaba por desistir.
O conselho que dou é tentarem começar por baixo, saberem como se faz um sapato do princípio ao fim. Eu passei dois anos a formar-me a sério, a saber como se faz um sapato, a qualidade, o estudo das peles, como se faz a pele, como se faz o salto, como se faz a forma…não é apenas construir o sapato em si, mas saber fazer o sapato a fundo. As medidas com que se faz uma forma, como é que calça bem, porque é que calça bem, porque é que pode calçar mal, e depois com a experiência, vêm aquelas ideias fantásticas que às vezes se têm e que nem sempre são exequíveis nos sapatos…Posso dizer que 80% das grandes ideias não podem ser realizáveis nos sapatos.
– Quais são as principais características que um bom sapato deve ter?
LO – Começa pelos bons materiais. É como um vinho, se não tiver uma boa uva por muito bem feito que seja, é impossível chegar à excelência.
É muito importante escolhermos bons fornecedores que saibam fazer as coisas bem feitas. Nomeadamente as solas, os saltos, as aplicações. A apresentação também é importantíssima. É fundamental o designer ter uma formação específica em marketing no intuito de saber onde comercializar o artigo, como comercializa-lo, quem devemos ter ao nosso lado para fazer um bom trabalho, porque podemos ter um trabalho excelente, mas se for mal apresentado isso irá prejudicar toda a imagem.
– Devido ao facto de o sector do calçado estar a afirmar-se, especialmente dado o contexto atual, será uma boa aposta hoje em dia ser designer de calçado? Há mercado? Há trabalho?
LO – Penso que sim, se forem bons designers claro que sim, e há bons designers em Portugal! Mas ser designer, especialmente de sapatos não é só desenhar. Tem que passar pela técnica. Tem que se ter o know-how de como fazer um sapato e só a partir dai o designer passa a ser interessante. Podem fazer-se coisas maravilhosas, mas têm que ser funcionais e comerciais.
Por vezes apetece-me fazer uma brincadeira, como alguns sapatos para “show-off”. Às vezes faço, mas mais para desfiles porque já sei que vai ser complicado e pouco funcional. O que interessa mesmo, são os sapatos mais simples que são também por vezes os mais difíceis de fazer. Esses sim, são os que nos permitem continuar e fazer o nosso trabalho.
– Uma mulher que gostasse de calçar?
L.O. – Eu sou um bocado saudosista dos anos 50, 60 em que existia um glamour diferente. Adorava ter calçado uma Grace Kelly, uma Lauren Bacall. Tento inspirar-me um bocadinho nesses tempos. Um bico fino é o que define a maior elegância do pé de uma mulher. O stilleto foi sempre o meu ex-líbris.
– Quantos centímetros de salto?
L.O. – Quanto mais alto melhor! Um sapato sem plataforma, pode aguentar ate aos 10 cm. Não para ser confortável, mas para se poder andar…!

 

7.3.2013
Published in Go Magazine (APICCAPS)
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