MODA PORTUGUESA ID

Há três décadas atrás, não havia “Moda” em Portugal.
Os figurinos estrangeiros eram reproduzidos com a autorização dos seus criadores e os poucos costureiros existentes “importavam” modelos e tecidos de França ou Itália referências icónicas da época.
Partindo destes moldes, confecionavam então peças de vestuário destinadas a uma elite muito reduzida. Só mais tarde com todas as mudanças políticas e ideológicas ocorridas na sociedade, começaram a surgiram em solo nacional boutiques de grandes marcas e com este aumento da oferta, os portugueses passaram a ter consequentemente uma nova atitude em relação à imagem.
Decorriam os anos 70 quando Ana Salazar se torna a primeira designer de moda portuguesa reconhecida internacionalmente.
Em 1991, Eduarda Abbondanza e Mário Matos Ribeiro aceitam o convite do Pelouro de Turismo da Câmara de Lisboa para desenvolver um projeto cujo objetivo seria divulgar e promover a moda portuguesa.
A ModaLisboa torna-se assim a primeira estrutura profissional destinada a apresentar as coleções dos criadores portugueses. Em simultâneo com os desfiles, o evento integrava o concurso Sangue Novo, destinado a descobrir novos talentos, e a dar-lhes espaço para expor as suas criações.
Alguns anos mais tarde, em Junho de 2005, é realizada no Porto a primeira edição do Portugal Fashion. Organizado pela ANJE (associação de jovens empresários) em parceria com a ATP (associação têxtil e vestuário de Portugal) veio a tornar-se outra referencia no setor. Contornando as dificuldades inerentes à situação económica do país e a falta de apoios consistentes, a moda portuguesa tem vindo a afirmar-se a pouco e pouco, em Portugal e além-fronteiras.
Hoje em dia, decorridos pouco mais de 20 anos, os números falam por si: 17 000 Empresas, 200 000 postos de trabalho, 6 700 milhões de euros de exportações, 2 800 milhões de euros de saldo comercial e 180 mercados de exportação.
Enquanto setor económico potenciador de uma dinâmica de expansão e produtividade, a moda portuguesa revela-se, afirma-se e procura novos caminhos. Internacionalizar, é a palavra de ordem.
No momento em que nos encontramos, impõe-se uma reflexão sobre esta temática:
Existe uma Moda Portuguesa?
Fará sentido falar em “Identidade criativa” num contexto em que os mercados (dicotomia marcas/consumidor) foram absorvidos por tendências gerais massificadas?
Onde estamos? Onde queremos chegar?
A Presidente e mentora da ModaLisboa Eduarda Abbondanza, o conceituado designer de moda José António Tenente e o industrial de calçado Paulo Brandão, refletem sobre esta temática, deixando o seu testemunho sobre três questões essenciais:

1 – Poderemos falar em “Identidade da Moda Portuguesa”? Se sim, quais as características que marcam a diferença?

2 – A globalização da moda será um fator determinante às necessidades competitivas do mercado, ou pelo contrário, será na diferença que reside a capacidade de resposta?

3 – Qual o caminho a tomar em busca dessa identidade?

Na opinião de Eduarda Abbondanza, se por um lado a moda internacional é influenciada por uma série de outras disciplinas, por outro é em si própria, a disciplina que mais reflete a sociedade e o contexto social em que vivemos. Futurista e avançada, apoia-se ao mesmo tempo na sua própria história. “Em termos da identidade da Moda Portuguesa e partindo da sistemática recolha de opiniões da imprensa e buyers internacionais, poderei dizer que esta se diferencia pela forma como os designers portugueses misturam as cores. Penso que esta é a característica mais relevante da Moda Portuguesa e que talvez remeta também para a luz, reflexo do oceano que nos acompanha e que tanto é identificado pelos estrangeiros que nos visitam.”
Já para José António Tenente, falar em “identidades nacionais” não faz muito sentido.
“Talvez pelo peso da tradição, os centros difusores de moda ‘Paris’ e ‘Milão’ tenham essa marca mais facilmente reconhecível ou pelo menos construído um imaginário coletivo. Penso que as identidades têm mais que ver os autores/criadores que refletem as suas personalidades nos respetivos trabalhos. Podemos por isso encontrar paralelismos em vários pontos do ‘globo’ e definir correntes de estilo, porque de facto o que inspira, motiva, interessa quem está na origem dos projetos, pode ter o mesmo denominador comum.”
O industrial de calçado Paulo Brandão, defende que “todos estão a fazer um grande esforço para cada vez mais mostrar a nossa identidade ao mundo, pelo que é importante criar condições para o fazer da melhor forma.” Refere contudo, que existe ainda um longo caminho a percorrer.


Em relação ao fenómeno “globalização” e ao facto de este ser ou não determinante relativamente às necessidades competitivas do mercado, Eduarda Abbondanza concorda, com uma ressalva: “se por um lado para as grandes empresas o fator da internacionalização à escala global é determinante, por outro lado ele só terá sucesso se assentar em elementos claramente diferenciadores e que remetem para o nosso património”.
José António Tenente discorda, afirmando que “A globalização é um presente envenenado’… e a moda é um alvo fácil. A contradição que lhe está inerente entre a massificação e a individualização é terreno fértil para passar esta mensagem global e também porque a rentabilidade de projetos de grande escala passa precisamente por essa globalização. No entanto, os ‘nichos’, a personalização (mesmo que por vezes apenas aparente), também têm cada vez mais lugar nesse mercado global. A diferença será sempre uma mais-valia, porque será sempre a expressão de poder criativo.”
No contexto do calçado, Paulo Brandão defende que será na diferenciação e na identidade própria, juntamente com um bom trabalho de continuidade, que reside a resposta aos mercados internacionais, e a competitividade das marcas.

Moda Portuguesa: ID –  Qual o caminho a tomar?
Para Eduarda Abbondanza, esse caminho já se iniciou. “Vários designers já se apoiam em elementos que fazem parte da cultura portuguesa. O caminho em busca dessa identidade passa também por darmos o devido valor ao que é nosso e por trabalhar em novos contextos, sempre na procura de linguagens diferenciadas. “
Para José António Tenente, este processo “não passará seguramente pelo regionalismo de reconstituição folclórico. Podemos até interpretar valores e símbolos nacionais/regionais, incorporando novas leituras e olhares, mas isso não chegará por si só. De facto, o meio que nos rodeia é determinante para o que fazemos. Não é igual crescer em Portugal, ou na Suécia, em Paris, ou Nova Iorque. Mesmo em Portugal, será diferente, viver no litoral, num centro urbano, ou no interior transmontano. Na era da informação e acesso generalizado e rápido a tudo o que se passa no mundo inteiro, acredito que ainda há condicionantes e especificidades que fazem a diferença. E temos muita coisa que nos define e que ainda hoje nos molda como povo; por exemplo, um passado histórico relevante, um espírito empreendedor e aventureiro, mas também o medo, infelizmente.”
Na visão pragmática de Paulo Brandão, a afirmação da identidade passará por “persistência e muito empenho”, trabalhando sempre no sentido de competir ao mesmo nível com os mercados internacionais.

 

Abril 2013, Published in Portuguese Soul
Foto: Expresso

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